Terça-feira, Julho 05, 2005

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso.., ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro à mingua, de excesso.

Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços de alma- e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,-
Vencer às vezes é o mesmo que tombar
-E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...

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Tombei...

E fico sé esmagado sobre mim!...

Paris, 8-5-1913


Definição de Mário de Sá-Carneiro com uma só palavra: Superação. Uma curta existência, com obsessões e conflitos profundos, porém vibrante e inesquecível, porque plena. Uma entrega absoluta, sem meios termos e sem medir conseqüências, na superação da vida pela arte literária.
Convidamos você a conhecer “um dos poetas mais originais da Literatura, não só portuguesa, mas européia e universal”[1]
[1] H. Houwens Post